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Ponto de mutação

O raso, de tão raso, transbordou em vazio. E o vazio era pouco e tão nada que fez um estardalhaço e quebrou tudo que era tão alto, tão belo e tão frágil... Quando o último caco ainda se movimentava no chão, o chão partiu. Nada era como se enxergava. Ficou o vazio. Do mais fundo poço vazio e escuro, e tênue como o nada cheio de ruídos,  brotou um fio de luz. Tão fino que chegava a cegar como a esperança de se entender e se fazer entendido. É confuso? Não, é regra. Não há ser humano que não passará por isso e não há santo que não tenha ultrapassado. Estilhaçar o ego, agradecer o elogio como quem passa por um cão feroz com respeito mas não adula. O ego cega, atordoa, brinca e depois vai embora. Quando você acha que está louco, desvairado, incompreendido, absolutamente SÒ, é sinal que sua parede está ruindo. Se você sobreviver e conseguir potencializar aquele fio de luz, ali sim você começará a existir, de verdade. Sem essas ou aquelas expectativas mórbidas porque o tempo de cada um é ...

Você me abre seu mastro e a gente faz um país

Depois de ter uma aula sobre Marina Lima, com Ricardo Serrazes, esse trocadilho de mastros tinha que ilustrar meu texto. Ficou meio fálico, mas não é nada disso. O lance é que passei a vida toda admirando a nossa bandeira. Acho essas coisas cívicas muito legais. Desfile, fanfarra. E essa verdinha, na sua totalidade é sensacional. Ela é orgânica, viva, no sentido ilustrado da palavra. Vigorosa. Não é um quadrado com três tracinhos, sem desmerecer as bandeiras alheias. As cores são alegres e viajando no melhor estilo no sense , o céu azul, circular, também pode ser visto como o planeta água cravado no amarelo, na civilização solar anunciada por tantos e dentro do verde que seria a sustentabilidade latente, pré requisito para que ela venha a existir. Para finalizar, a Nova Era anuncia o Brasil como centro energético de mundo. Mais precisamente o Planalto Central. Se eu não conhecesse essas teorias, ainda assim, acho que seria apaixonada por ela. E simplesmente não ousaria tentar comp...

O casamento do meu melhor amigo

Se o sexo tem, ao longo dos séculos, trazido para as relações sentimentos de culpa e abandono para quem trai e para quem é traído, porque não abolir o sexo das relações afetivas. Deixa o sexo para o instinto. Tá na cara que a gente não sabe lidar com os dois juntos. Socialmente falando, salvo casais que são exceções, é sempre assim. O amor vem com a paixão e pum, um desviozinho dos caçadores a cata de aprovação e conquista, ou, simplesmente uma química de pele forte e lá se vai o canal de comunicação. Está decretada a  separação. A culpa afasta o executor. Esfria, ou não, mas é raro. Sempre esfria. O outro saca, claro, porque nos comunicamos por energia e ela não tem capa de chuva. Tem coelho nesse mato. Pensando  nisso, em prol da afetividade e da felicidade, porque não mudamos a regra do jogo? Casamos com nossos melhores amigos (as) e sexo, há, esse apêndice indomável do ego, fica para o supérfluo.  Para as esquinas, as férias de verão, o boteco. Para q...

O mundo sempre acaba, mas sempre recomeça. Feliz 2013!

Nessa época sempre bate aquela vontade de compartilhar a colheita com os amigos. Agradecer os sorrisos, os apertos de mão, os abraços ou simplesmente o coleguismo. Nesse ano tive o privilégio de ganhar muitas bolas novas para minha árvore da vida. Estrelas e anjos. Também foi um ano emblemático. Essa coisa de fim de mundo, a crise econômica, uma imagem externa de um Brasil que ainda não nos convence. Mudanças a vista, ou, como disse o monge do templo budista, “consciência da mudança a vista”. Vamos ter que nos adaptar. Tudo está mudando rápido e não comporta resistência a velhos padrões. Se joga! J Como diria meus amigos da dança. Independente de o mundo acabar, todos os dias alguém se acidenta, perde alguém, rompe uma relação, vence um câncer e renasce. Todos os dias crianças nascem e enchem os lares de alegria. Outras, são abandonas nas primeiras horas de vida. “São dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também des...

Quem roubou a lente da verdade?

Ontem, numa sessão solene na Câmara dos Deputados foram devolvidos, simbolicamente, o mandato de 173 deputados cassados na época da ditadura. 28 estão vivos e alguns puderam receber pessoalmente como Plínio de Arruda Sampaio, aliás, homenageado por quase todos os líderes que tiveram a palavra. O cara é mesmo uma lenda. Uma "autarquia". Do tipo de gente, que não sai quieto da vida de quem o ouve. Faz um barulhão e enche nosso peito de esperança de que outras mentes se abasteçam de clareza e raciocínio coerente de quem sempre priorizou o coletivo. O ato, mesmo simbólico, significa muito. Inegavelmente. Um tapa de pelica na intransigência histórica. Foi emocionante, foi real. Um fio de linha desse novelo cheio de nós. Enquanto isso, do outro lado da rua, no Palácio do Planalto, outro socialista era homenageado. Oscar Niemeyer despedia-se da sua criatura. Ou, ela é quem se despedia dele por meio das pessoas que se enamoram de sua invenção todos os dias, com o privilégio de te...

Saudades

Sinto saudades concretas Plausíveis Justificáveis Aprendi a conviver com ela como uma doença crônica Anônima Se deixasse as lágrimas correrem todas as vezes que meu coração pede, me julgariam doida Os homens principalmente Que não entendem muito de gente Logo eu, que me sinto tão feliz Que recebo tanto do lilás das flores, do tirlitirtir dos pássaros, do cheiro da terra molhada Como ouso sentir saudades? Que não é o mesmo circuito que percorre a tristeza, mas tem uma via expressa depois da curva Sinto saudades do meu filho Sinto saudades das músicas dos anos oitenta Sinto saudade de me entregar à dança a ponto de repetir o ano escolar Hoje, isso não me preenche mais Não me entrego assim a nada O que é bom. Chega de repetir o ano. Hoje sou um ser coletivo Meus pequenos prazeres me fortalecem e me abastecem para os afazeres diários Mas penso por dois ou três Não sou individual Não penso mais como uma Onde será que perdi meu indivíduo? S...

Nunca fui amada

Cheguei a essa conclusão Me tornei tão hábil em compreender o momento do outro que, nos meus relacionamentos,  deixava que as pessoas se achegassem e se achegassem e eu, como a água, aderia. Em momento algum eu deixava de ser eu. Minha consciência estava presente a todo momento, em todas as concessões e desenvolvi a habilidade de fazê-las espontaneamente.  Porque é assim que sei ser.  De tal forma que eu, um dia, me tornava invisível. E me tornando, partia em busca de minha forma original que nunca era a mesma de antes.  E daí, somente aí a outra parte do que nos tornávamos sentia a minha falta como a de um braço, uma perna, um dedo.  Até parece que é amor, mas nunca foi. Talvez um tipo de dependência da minha presença materna, feminina, protetora e de certa forma alegre.  Talvez por isso nunca me senti bela. Na minha consciência, se eu o fosse, talvez me amassem assim, de qualquer jeito, apenas por eu exisitr. Mas não...