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O MEDO DO TÉO: VIDA A 2.

Ele só tem 23 anos, é jovem e inteligente. O que temem os jovens de 23? A crise econômica ? Medo de não ter aposentadoria? Falência do sistema previdenciário e financeiro? Não, nesse caso em especial, ele tem medo de se entregar a alguém. Isso mesmo, a um relacionamento. Um certo dia esse foi o assunto lá na redação, em Campinas ainda. À boca miúda, é claro. Eu pensava em como alguém tão promissor, jovem, bonito e carismático poderia ter sido marcado tão fortemente assim? Então eu, toda segura e madura disse que passaria. Esse medo passaria tão logo encontrasse alguém bacana que inspirasse a vida suficientemente para nem fazê-lo pensar em medos. Eu acreditava mesmo nisso. Tinha até certeza.afina, com o tempo, todo mundo esquece a dor e o que fica é a vontade de ser feliz e encontrar alguém legal. Fato é que essa “verdade” estava amparada pelo simples fato de eu morar na casa do meu pai, com meu filho, minha irmã e minha sobrinha, trabalhar com meu melhor amigo, encontrar...

SEDENTARISMO E O MSTA

Ele fica a espreita, de plantão, tipo anjo mesmo. Um deslize seu e ele chega junto. Com a capa da invisibilidade do Harry Potter e vai dominando. É altamente articulado, mobilizado e quando você vê, as suas células estão todas aderindo ao movimento classificado como: adiposo em massa . Você, o dono do corpo, é sempre último a saber. Parece que todo mundo saca, olha como quem quer te dizer algo quando você veste aquela calça que não fecha direito, mas você não se toca. É quando resolve percorrer o seu território num dia de auto estima boa, esfoliação , depilação , corte das unhas, que você detecta o inimigo. "Fazer as unhas" dos pés se torna quase um projeto de lei para que você seja amparado legalmente no caso de não voltar a ser quem era depois de permanecer mais de uma hora em posição de biscoito da sorte . Unhas belas, agora vamos levantar garota! "Nossa, eu não era assim!" Daí você lembra desde quando é difícil sair do biscoito da sorte...

BRASÍLIA, EU NÃO VOU GOSTAR DE VOCÊ

Começo colocando a foto do céu, porque isso sim, é uma coisa de emocionar no Planalto Central . Cada dia é um show a parte. E não foi o Niemeyer quem projetou o céu daqui, nem o Lucio Costa que decidiu que seria assim. É vocação. É Deus dizendo: não se desespere. Na falta de esquinas, calçadas e informação, olhe para cá! :) Andando assim, nesse vazio imenso, nesse elefante branco sem alma, sinto um único medo: de me acostumar. (nota de edição futura: me acostumar não acostumei. Me apaixonei mesmo pela cidade)  Me acostumar com essa cidade que não nasceu para fazer gente viver feliz. Parei no ponto errado porque o cobrador desatencioso me indicou que eu deveria descer ali e, descendo, vi que estava muito longe do meu destino. Chovia. Começou ali, naquela hora. O sinal fechou. No canteiro central não avistava o semáforo para atravessar a outra pista. Eu tentava equilibrar meu livro embaixo do guarda-chuva que já se mostrava impotente debaixo do toró e sem graça, minh...

MAIS ADIANTE NO EIXO. O EIXO É O BICHO. O CORAÇÃO DO GIGANTE.

Na Esplanada dos Ministérios tudo seguia em harmonia. Era domingo e não havia trânsito. Nossa sorte grande para a primeira impressão. Em dias úteis o trânsito é de arrepiar no trecho. Falando nisso, outra mancada federal de Lucio Costa é famosa. A ausência quase absoluta de calçadas no eixo central. É um gramadão bem bonito, mas será que para ser transitado por pessoas?  Década de 60. O boom do automóvel no Brasil seria dez anos após a inauguração de Brasília . Porque o projeto de Lucio Costa não garantia às pessoas dignidade de usufruir do único meio de locomoção que já vem de fábrica: nossas pernas e pés? Com calçadas insuficientes, se você insiste em caminhar e nunca se sentiu um excluído social, terá essa chance. Congresso Nacional   São duas cúpulas, uma da Câmara e outra do Senado. Tudo do Niemeyer . As torres que seguem suntuosas entre as conchas acomodam os escritórios de Senadores. É belo, com espelhos d’água na frente e um grande gramado. Dizem que à noite ...

O FIASCO DA BIBLIOTECA NACIONAL

  O prédio suntuoso, ali, no centro da praça lisinha, faz dele ainda maior e mais belo. Excitados pela ideia de ver o acervo nacional seguimos curiosos. Entramos e os guardas disseram: “só podem ver aqui ao lado e o 2º andar” O Xandão me avisou que também no prédio fica o governo do DF em transição , por isso tanta segurança. Entramos felizes, climão bacana de quem está diante de um gigante respeitável. Pisamos na sala de estudos, pessoas estavam navegando na internet. De cara o rangido do piso parecia gritar naquele ambiente hermeticamente silencioso: inhéééééc, ínhéééééc, inhéééééc. Nos olhamos assustados. Estávamos incomodando o pessoal, que feio! Sim, mas as lajotas de granito do chão estavam soltas e conforme caminhávamos, já como dois bailarinos russos, o inhéééééc, inhéééééc soava certeiro. E estava todo assim. O piso da sala de estudos tooooodo solto sem contra piso. Nossa biblioteca gigante estava de havaianas e bermuda rasgada na bunda. Subimos então com um sorrisi...

CHEGAMOS À ÓCA. O MUSEU NACIONAL DO CONJUNTO DA REPÚBLICA

      Aqui, parece que a proposta era assinar a ancestralidade brasileira . O museu, em forma de oca , todo branquinho, parece valorizar uma parte ainda muito invisível até para nós brasileiros.  Não sei porque, mas em todo resto do país passamos ilesos pela natividade na nossa arquitetura. Nada arredondado, nada que remeta as aldeias nativas do país.  O museu até parece um OVNI. Mas seria uma ocóvni? Ou uma ovnioca? Só sei que é muito bacana.  No piso de baixo a exposição Lifestyle , do israelense David Gerstein . Muito linda! O artista retrata cenas cotidianas com leveza, ironia, cores e beleza. Seu olhar sobre a sociedade moderna de consumo . Ele pinta à mão as peças que são cortadas no aço a laser . As esculturas, fixadas na parede ainda jogam no branco um punhado de sombras que se misturam às formas e às cores. Bonito pela frente, pelo lado, pelo inverso. O artista tem esculturas públicas espalhadas por todo mundo. No andar de cima estava o M...

A CATEDRAL

    Todas as minhas impressões aqui são toscas, desprovidas de profundidade e, embora tenha me entusiasmado em ler mais sobre os sete projetos que disputaram Brasília , os porquês, as inspirações, tento nesse momento olhar tudo apenas com a minha desfigurada visão de leiga, forasteira, de quem olha e sente antes mesmo de enxergar.  A tal da primeira impressão.  Mas, falando da Catedral , de fora, uma coroa. Como se ela tivesse mesmo sido premiada, escolhida para estar ali, próxima ao poder. O vazio que ela propõe, iluminado pelo reflexo dos vitrais remete à introspecção profunda. Talvez aquele vazio para onde as religiões deveriam nos conduzir. Onde encontramos a nossa sujeira interna e temos a chance de expurgá-la para então enxergar através dos nossos vitrais. Ver Jesus ali, crucificado, pra variar, encheu meu vazio de mais e mais culpa. Os três anjões enormes, pendendo sobre nossas cab eças também me incomodaram. Parece coisa de natal. Eu gostei tanto do va...